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Ao caminhar pela Ipiranga, protegido do calor pela sombra das Tipuanas, observo seus troncos. Seu desenho guarda a história, os gestos e escolhas de 60 anos de vida na cidade. A busca pela luz que passa pela fresta entre dois edifícios ou pelo espaço deixado pela presença de um estacionamento. Vemos também, as podas intensas e contínuas que evitam que seus ramos danifiquem a infraestrutura da cidade. Seu corpo se desenha também por eventos extraordinários como o choque de um ônibus, um raio ou uma grande chuva de verão. Quem sabe até pelo desejo, desejo de se colocar mais perto de outra Tipuana. De se expor a chuva e a brisa que carrega mensagens químicas de parentes distantes.

Olhar seus troncos é observar o desenho de um corpo no tempo e no espaço da cidade. Um corpo biológico, vivo, que interage e percebe seu entorno, que modifica e é transformado por ele. Um corpo que se desenvolve dentro de uma temporalidade vegetal e não humana, mas que ao ser colocado no contexto da cidade vive em dois tempos, o de seu corpo e o da funcionalidade no espaço.

Funcionalidade é uma palavra que define bem nossa relação com essas árvores e que nos impede de percebe-las por inteiro, e quem sabe de poder escutá-las. Seus corpos nos contam muito sobre o espaço que construímos e que assumimos como morada, seus ciclos de vida nos falam do tempo, um tempo distinto do tempo que vivemos nas cidades. Essas imagens compõem uma série de retratos no tempo, como todos os retratos, esses também são espelhos.




Tipuana Tipu, 2016 – 2020


Photographs:

Analog 4X5 Negative / Archival Pigment Prints.